Meses depois, já como pseudo-jornalista da Folha o vi entrar em uma loja para comprar Astral Weeks, do Van Morrison.
"É culpa sua, cara, me viciou nessas coisas e gasto todo meu dinheiro com isso."
Nunca ser culpado foi tão gostoso.
Hoje, faço bem menos isso, embora tenha mandado muita música via MSN, para várias pessoas, inclusive quem não as merecia. Não entendo como alguém pode abaixar 5 gigas e ouvir os mesmos discos de sempre, apenas porque "falam bem desses grupos, um dia eu preciso ouvir", sem jamais tocá-los.
Música se ouve ou não se ouve. É simples assim. E downloads são horrorosos e apenas uma parte da diversão, para quem coleciona e aprecia as letras, encartes, etc.
Dessa maneira, enquanto fico encasulado em casa num sábado terrível de quente, ouço esse monte de atrocidade vindo das ruas, das enormes caixas de som em porta-malas, enquanto tomam uma Itaipava e assam uma picanha suspeita sob um sol escaldante.
Alguns chamam isso de diversão. Na minha ranhetice de meia-idade, considero puro masoquismo.
Diversão é ficar em frente a um potente ventilador, de fone de ouvido, com meus cds, filmes e a companhia de minha esposa.
Esposa essa que não empresto ou vendo de maneira alguma, aliás.
Afinal, como diria o antológico presidente Vicente Matheus, ela é "invendável e imprestável".
Se é que me entendem.