sábado, 13 de outubro de 2012

O som da música

Com tanta boa música no mundo é deprimente ver como as pessoas se apegam a cópias feias e gastas e aceitam passivamente os artistas da moda, absolutamente rasos e sem nada a oferecer além de letras atrozes, total falta de talento e melodias medíocres.

Nos meus 20, 30 anos comecei uma missão de mostrar os meus discos para o maior número possível de pessoas.

Ia pro Mackenzie sempre com um vinil recém-comprado e me recordo quando emprestei um lote para um colega gravar. Fiquei tenso com a possibilidade de que sumissem, quebrassem, fossem riscados ou simplesmente fossem furtados. Nada disso aconteceu e foram devolvidos exatamente como os emprestei.


Meses depois, já como pseudo-jornalista da Folha o vi entrar em uma loja para comprar Astral Weeks, do Van Morrison.

"É culpa sua, cara, me viciou nessas coisas e gasto todo meu dinheiro com isso."

Nunca ser culpado foi tão gostoso.

Hoje, faço bem menos isso, embora tenha mandado muita música via MSN, para várias pessoas, inclusive quem não as merecia. Não entendo como alguém pode abaixar 5 gigas e ouvir os mesmos discos de sempre, apenas porque "falam bem desses grupos, um dia eu preciso ouvir", sem jamais tocá-los.

Música se ouve ou não se ouve. É simples assim. E downloads são horrorosos e apenas uma parte da diversão, para quem coleciona e aprecia as letras, encartes, etc.

Dessa maneira, enquanto fico encasulado em casa num sábado terrível de quente, ouço esse monte de atrocidade vindo das ruas, das enormes caixas de som em porta-malas, enquanto tomam uma Itaipava e assam uma picanha suspeita sob um sol escaldante.

Alguns chamam isso de diversão. Na minha ranhetice de meia-idade, considero puro masoquismo.

Diversão é ficar em frente a um potente ventilador, de fone de ouvido, com meus cds, filmes e a companhia de minha esposa.

Esposa essa que não empresto ou vendo de maneira alguma, aliás.

Afinal, como diria o antológico presidente Vicente Matheus, ela é "invendável e imprestável".

Se é que me entendem.