Arthur Schopenhauer não morreu. Sua obra continua imortal e não merecia virar nome de um blog ridículo. Mas o que se esperar de um fã dele que passa os dias ouvindo Sex Pistols e Village People?
Algumas coisas aparecem do nada, como se você precisasse parar e refletir o porquê. Mas boa parte dos acontecimentos da vida possui uma raiz, uma razão primal, e que pode ser um desenrolar após longa espera.
Há cinco dias sozinho, em casa, desde que a amada viajou, minha rotina mudou e não consigo fazer aquilo que tinha me proposto. Na verdade, tenho dormido mal, ficado ansioso e entediado. Mal consigo ouvir música, ler ou escrever.
Sempre fui uma criatura solitária, mesmo quando morava com minha irmã, em SP. Antes dela chegar, morei 4 anos só e a solidão em si nunca me assustou.
Minha cabeça sempre esteve ocupada temendo o futuro, o que eu seria, praguejando porque eu tinha escolhido um ridículo curso de engenharia que nada tinha a ver comigo. Os anos de 1990 até 1993 foram os mais negros da minha vida. A perspectiva era mínima.
Mas, de repente, começo a trabalhar, me indentifico e resolvo fazer o que era tão óbvio e claro: largo a engenharia, mesmo não estando certo do que queria. Ao menos, sabia o que não queria. Uma evolução.
E a solidão, ali, de mãos dadas comigo, indo pra cima e pra baixo, criando mais fantasias e me fazendo mergulhar cada vez mais em mim.
Assim foi até os 33 anos, quando conheci a pessoa que tanto amo. E, mesmo assim, no começo, era meio descrente e achava que ser tio seria meu destino.
Estranha a vida...
Ela te joga de um lado pro outro, como se fosse uma batedeira a preparar um bolo.
Não pergunta porque gira, apenas gira. E vai jogando conceitos fora, modela outros, descarta, incorpora, uma lobotomia.
E aí me pego tenso, ansioso por estar há cinco dias só, o mesmo cara que passava anos e anos solitário, o mesmo cara que deixava de sair de casa para se trancar com cds, livros e filmes, o mesmo cara que se "vestia jogando-se dentro do armário" - definição do Menon sobre meu ótimo gosto para roupas - e que não esperava mais nada da humanidade.
Até que apareceu a tal batedeira e colocou a Naiacy na minha vida, e acrescentou amor, esperança, deixando a solidão em quantidades mínimas, insuficiente pra me auxiliar nesse momento em que mais preciso dela.
E experimento um novo bolo. Mais saboroso que os de antigamente, mas que não consegue substituir completamente os antigos.
Quando menino - aos 15 anos, para ser mais exato - um amigo me abriu os ouvidos para um grupo da improvável e distante Irlanda, cujo nome tinha apenas duas letras: U2.
Além de me mostrar a banda, me falou dos novos grupos: The Cure, The Smiths, Echo and the Bunnymen, etc.
Foi como um choque.Imediatamente algo despertou em mim e comecei a sair à caça de discos que não conhecia e de bandas estranhas.
Foi assim, no distante ano de 1984 que minha vida começou a mudar, embora minha coleção tenha começado em 1985 e minha compulsão por vinis em 1986.Desde então tudo mudou e cada centavo - ou cruzado, ou cruzado novo, ou cruzeiro, real, sei lá quantas moedas tivemos - ia nisso.
Deixava de sair para comprar mais e mais vinis e dar meus primeiros passos nesse mundo. Fui morar em São Paulo, em 1988, com a desculpa de fazer cursinho, mas o que queria mesmo era conhecer o mundo das grandes lojas do centro.
Nesses mais de 20 anos tive sempre que ouvir a crítica de que gastava dinheiro demais com essas bobagens, que disco não servia pra nada e quando pirei e fiz dívidas imensas, ninguém sentiu um mínimo de dó e de pena em me ver dilapidar minha coleção para pagar os débitos, coisa que me arrependo amargamente, pois ainda tenho dívidas, mas não os discos e CDs.
Dos meus 2500 cds e mais de 1500 LPs tinham sobrado cerca de 300 LPs e meros 40 CDs.
Hoje luto para remontar parte do que tive e aprendi que não devemos desistir do que gostamos para ouvir o senso comum dos outros.
Foi uma dura lição, amarga, que me fez ter delírios e até febre em ouvir novamente algo perdido. Ainda tenho isso e sinto até coceiras, como um viciado em heroína. Ao ficar tenso, minha cabeça coça e esfrego meus cabelos compulsivamente, como agora.
Nunca me esquecerei de um manhã em que consegui um dinheiro e me mandei, desesperado, à Galeria do Rock a fim de adquirir um novo Station to Station, do Bowie. Eu tinha revirado na cama, me contorcendo e ardia de febre, com mais de 38 graus só esperando dar 9 horas, quando a loja abria, para comprar o CD, absolutamente fora de mim.
Então, nesse dia em que estou só, aproveito para ligar o som bem alto e ouvir mais um CD que tinha perdido até a providência me dar uma nova cópia.
Orange and Lemons é um dos mais bacanas discos desse grupo tão esquecido, outro que se perdeu na claustrofobia do mundo moderno e totalmente soterrado pelo lixo que abunda e transborda em um planeta cada vez mais insuportável.
Mas graças ao bom Deus ateu, inventaram o fone de ouvido e ainda não perdi a audição e nem o juízo. Sendo assim, duas doses de XTC. Obrigado, Andy.
E, obrigado, Gustavo, por me abrir os ouvidos há mais de 25 anos.