sexta-feira, 6 de março de 2009
Tattoo
Eu e meu irmão estávamos conversando
Sobre o que faz um homem ser um homem
Se era ser inteligente ou bravo ou o mês em que nasceu
Não conseguíamos entender
Nosso velho não gostava de nossa aparênca
Dizia que apenas as mulheres usavam cabelo comprido
Então eu e meu irmão pedimos dinheiro emprestado de nossa mãe
Sabíamos o que fazer
Descemos às escadas, passamos pelo barbeiro e pelo ginásio
E tatuamos nossos braços
Bemvindo à minha vida, tatuagem
Eu sou um homem agora, graças a você
Acho que vou me arrepender
Mas o cara do enxerto não te pega
Você estará lá quando eu morrer
Tatuagem
Meu pai me bateu pois a minha diz "mamãe"
Mas minha mãe gostou naturalmente e ela bateu em meu irmão
Pois a tatu dele era de uma mulher nua
E minha mãe achou extremamente rude
Bemvindo à minha vida, tatuagem
Eu sou um homem agora, graças a você
Acho que vou me arrepender
Mas o cara do enxerto não te pega
Você estará lá quando eu morrer
Tatuagem
Agora estou mais velho, tenho tatuagem por todo lado
Minha esposa também é tatuada
Uma tatuagem enraizada para você.
É na cabeça ou no coração?

"Is it in my head, or in my heart? ..... I see a man without a problem."
Duas frases soltam dificilmente dão o contexto de uma música ou obra. Todavia, gosto dessas duas sentenças contidas na canção "Is It in my Head", do disco Quadrophenia, do The Who.
O Who é minha banda favorita daquelas que começaram nos anos 60. Mais do que o apuro instrumental e o bom humor, Pete Townshend era um especialista em fazer letras intimistas e pessoais e um tanto ingênuas, coisa que nunca negou, pelo contrário.
É uma lástima que eles nunca tenham tido um primeiro lugar nas paradas tanto na Inglaterra quanto na América. Mas o importante é saber que foram grandes captadores do que acontecia ao redor deles e também por terem ajudado a difundir a cultura mod, embora nunca tenham sido exatamente mods.
Quadrophenia virou um filme de imenso sucesso e influência e é um dos meus refúgios quando estou meio quieto, chateado ou precisando sonhar.
A história de Jimmy, o mod rebelde e seus amigos, na Londres de 1964, é um dos marcos do cinema da década de 1970, e uma das obras mais interessantes sobre a difícil transição da adolescência.
Vale muito a pena acompanhar os extras, em especial a conversa do diretor Franc Roddam com o ator Phil Daniels, com inserções da atriz Leslie Ash, a principal protagonista feminina.
A esquizofrenia, o abuso das drogas, o amor, sexo, a falta de esperança de uma juventude proletária, tribos, tudo é colocado de uma maneira divertida, alegre, doce, amarga e trágica.
E, no final, ficam as perguntas: "nós somos comandados pela cabeça ou pelo coração? Haverá algum homem sem problemas nesse mundo?"
Não me perguntem porque não sei.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Meu texto favorito...
O campo de futebol é tão grande que dá para se perder. Embora eu tenha sido um jogador medíocre, gostava de algumas sensações.Gostava de ficar bem perto da bandeira de escanteio, marcado, vendo qual a situação que encontraria. Botaria na canela do adversário? Deixaria ele me empurrar e sofrer a falta ou cederia o tiro de esquinado?
Também sempre gostei de tentar lançamentos longos. Nada é mais bonito do que a posição de volante, vendo o jogo inteiro, observando a movimentação dos demais.
O futebol é apaixonante por ser simples e por mostrar todas as virtudes e defeitos humanos de uma pessoa num curto espaço. E Camus concordaria comigo. No caso, eu concordo com ele. Não sou besta.
Como não tinha mais tornozelo para correr, fui para o gol. Vivia roxo nos braços, nas pernas. Jogava futebol de salão e dava, literalmente, o sangue todo sábado, por três horas. Minha tia dizia que eu gostava desse tipo de coisa para poder aliviar outros traumas. Verdade.
Poucas posições são tão bonitas quanto o goleiro. A solidão, o uniforme diferente, a presumível impossibilidade de se falhar no momento derradeiro. Tive minhas defesas espetaculares na gaveta, momentos que se eu contar me chamarão de mentiroso.Todos vivemos para esses momentos. Em qualquer atividade.
Não era um perna-de-pau, mas não tinha altura ou técnica. Tinha arrojo, isso não se pode tirar de mim. Saía no pé, na cabeça, no estômago. Era leal, poucas vezes capitão. Disciplinado, chato, berrava com meu fixo o tempo todo. O futebol me ensinou, entre outras coisas, lealdade. E companheirismo.
Mas a vida nos priva dessas coisas. Na faculdade resolvi que iria estudar xadrez. Ficava oito, nove horas, jogando sozinho, lendo livros, copiando diagramas do Estadão, jogos de Kasparov, Karpov, etc.
Aprendi com meu tio, entediado por não ter com quem jogar e acabou doutrinando-me e um ex-namorado da minha irmã. Jogamos umas 500 partidas, devo ter ganho umas 25, se tanto. Cada derrota me consumia, mas eu voltava ao tabuleiro. Só uma me tirou do sério. Estava vencendo, tinha um mate em um lance, não vi e perdi! Fiquei dois dias sem olhar prum tabuleiro, enfurecido.
Nunca tive jeito para isso, não. Tenho boas memórias, no entanto.
Uma vez cismamos de comprar um relógio para jogarmos. Rodamos feito malucos e acabamos indo ao Clube do Xadrez para adquirirmos, embaixo de uma chuva torrencial. Saudades daqueles tempos...
Cobri futebol. Cobri xadrez.
Profissionalmente.
Marcos, Karpov, Arce, Gilberto Milos. Fui falando com quem aparecia. Fazendo as perguntas mais descabidas. Mas ia aprendendo. Chorei muito quando tive que deixar o Lance! até porque eu tinha feito muitos contactos e sabia que iriam se perder. Conversas com Giovanni Vescovi, Rafael Leitão, Gilberto Milos, um sorriso de Karpov que perguntou se eu não tinha o entrevistado três anos antes, em Cumbica! O cara, ex-campeão do mundo, se lembrou da minha entrevista com ele, naquele dia! Quase chorei...
Pôxa, tanta coisa para se dizer! Nunca gostei do Zagallo, mas ele foi um cavalheiro comigo, não nego. Gostava do Luxemburgo, mas ele foi um escroto. Detesto o Leão, mas ele foi cavalheiro também, acreditem ou não. Me salvou um dia de treino e duas páginas.
Tanto ídolo que me azedou, tanto chato que levantou minha moral como um rabo-de-galo numa noite chuvosa.
Eu não pego mais no gol, não tenho com quem jogar. Xadrez, eu tentei ensinar a Naiacy, mas ela não curtiu. Jogar no micro é chato. Odeio tela plana, gosto de fazer aquela coisa de apoiar os braços na mesa e olhar por cima das peças, como se fosse um bombardeio. Fiiuuuuuuuuuuu lá vai meu xeque-mate, cubram-se!!! Ah ah ah...
Nunca dei xeque-mate bonito. Nunca tive estilo. No jogo. Estilo, até que tenho. Jeito, talvez. Apenas lamento que o mundo não tenha conhecido meu xeque pastor que tanto iria arrebentar com a vida dos maiores campeões. Ia ensinar ao Karpov, mas não deu tempo. Acha que eu ia ensinar aos brazucas? Dá um tempo malandragem... arma mortal só para os maiorais.
segunda-feira, 2 de março de 2009
"Professor de música"
Música sempre foi algo importante na minha vida, mais do que futebol.A beleza da música está na sua infinitude e nas N possibilidades.
Conheço vários colecionadores e sei que é impossível todos terem a mesma lista de discos favoritos. Todos temos esse ou aquele que gostamos mais por remeter a um fato de nossa vida.
Os meus, por exemplo, nunca batem com de cinco ou seis "especialistas". Claro.
Ao longo da vida sempre andei com uma mochila velha - tive algumas verde-limão com azul que marcaram época no Mackenzie.
Raramente eu ia às aulas de engenharia, mas quando passava por lá, minha mochila constava de um caderno qualquer, minha carteira, algumas canetas, um drops halls preto extra-forte e cartelas de pilhas Duracell, meu walkman e cinco ou seis fitas.
O pessoal me via chegando e começava a rir: "lá vem o turista!"
Mas, o turista, era tão viciado em música que, volta e meia, alguns pediam conselhos de algo pra ouvir e perguntava se eu tinha este ou aquele vinil. Certa vez, emprestei uma pilha dos meus vinis dos anos 60 - uns 40, todos importados - prum amigo.
Suava só de imaginar algum perdido ou riscado, mas ele devolveu-os intacto, embora tenha cometido uma heresia: "Esse primeiro do The Band é ruim demais, muito pop!"
Tudo bem, nem todos são abençoados.Mas, o mesmo amigo - Alexandre - anos depois comprou um vinil de Astral Weeks, do Van Morrison, em uma loja, no mesmo instante em que eu entrava na loja.
Após uma troca efusiva de abraços - não nos víamos há uns dois anos - ele pegou a bolacha e disse: "você é o culpado desse meu gasto. Você que me apresentou esses caras todos."
Discretamente, uma lágrima caiu do meu rosto de satisfação.
Ao longo da vida, algumas pessoas compraram discos indicados por mim ou fascinados da incessante audição que eu dedicava às velhas fitas de 90 minutos.
É claro que havia um certo proselitismo de minha parte - "tá brincando que não conhece os Byrds?" - mas eu deixava rolar.
Não se ensina ninguém a gostar de música; no máximo, você pode apresentar um ao outro e deixar que os dois se entendam.Assim, ao som de dois discos amigos de longa data - Fisherman's Blues (dos Waterboys) - forte candidato ao disco mais ouvido da minha vida, superando U2 e The Smiths - e Egyptology (World Party), me despeço por hoje.
O "professor", na verdade, não passa de um sedento aluno. E, cada vez, com mais vontade de aprender.