EVAIR, O LIBERTADOR
RUBENS LEME DA COSTA
(http://www.schopenhauerperde.blogspot.com/)
Craques... quem nunca sonhou com eles, quando menino?Quem nunca ficou pensando antes de dormir, naquele jogador especial, antes daquela partida tão aguardada?
Eu, por exemplo, sofri dois anos antes do início da Copa de 82. Lembro-me até hoje que disse "é hoje!" antes de começar a partida contra a extinta URSS. Pois, no segundo seguinte, Luciano do Valle tascou um "é hoje, sim! Brasil e União Soviética!".
Meus pais e amigos que estavam em casa riram com a coincidência. Como chorei naquela Copa, ainda meninote.
Ao longo dessa “profissão” de torcedor colecionei ídolos como Falcão, Dario Pereyra, Luís Pereira, Jorginho, Sócrates, Maradona, Van Basten etc... Porém, sou palmeirense e, nesse ponto, básico: o meu ídolo dentro das quatro linhas chama-se Evair Aparecido Paulino.
Caso não tenha se ausentado do planeta nos últimos 20 anos, saberá que o Palmeiras era uma versão atualizada do "faz-me-rir" corinthiano da década de 60, mas nos anos 80 e 90. Nesse meio tempo fomos humilhados por Inter de Limeira, XV de Jau, Ferroviária, Serginho II, Aguirregaray e outros nomes que me nego a escrever para não aumentar minha úlcera.
E Evair nos redimiu, nos deu alento. Evair quase me matou do coração em 1993 quando sofreu uma maldita contusão que o deixou dois meses fora do time antes das finais do Paulista.
O sono foi embora, a tensão aumentava, os corpos de cerveja eram virados: "caralho, eu não quero ser vice de novo, não quero ter o doce roubado na hora H!".
O primeiro jogo teve até imitação de Porco de um certo Paulo Sérgio Rosa. Mas a confiança voltou ao ver o eterno Matador entrando, no segundo tempo da partida. Fora de ritmo, pouco fez. Mas a esperança voltou. "Ele tem uma semana para readquirir a forma e arrebentar".
Na manhã da final, andava tão nervoso no sítio da minha tia, que pedi ao caseiro para fazer algo. Sem pensar, me deu o machado com o qual rachava lenha para o fogão caseiro e disse: "manda ver!". Nem pensei: o que ele demorava quatro machadadas, eu fazia em duas. Iniciante sortudo, derrubei a primeira tora com uma pancada só. Deu pra descarregar. Um pouco.
Começa o jogo. Tenso, difícil, até a perfeita parede de Matador para Zinho. E, pela primeira vez, torci o tornozelo descalço com o pulo que dei do sofá, quase arrebentando os ligamentos.
O segundo tempo era duro, mas Matador fez o segundo, participou do terceiro e nos libertou na prorrogação com o penal perfeito. Anos depois, como repórter, o vi num treino da Portuguesa, em 1998.
Quando me aproximei dele, fez cara de poucos amigos. "não dou entrevista", berrou a fera. Não vacilei, me aproximei, apertei sua mão: "obrigado por me libertar".
Desconcertado, me devolveu um sorriso, sem graça. "é palmeirense? puxa, não passo um dia sem que alguém me agradeça; é algo que até hoje me emociona."
Me emociona, você, Evair Aparecido Paulino. Obrigado por me libertar. O meninote de 1982 andava precisado.





