Quando se é garoto, os sonhos são as únicas coisas possíveis. Você não tem noção de dinheiro, não tem noção de como o mundo é feito, a ingenuidade é a coisa mais linda que existe.Me lembro que não entendia porque minha mãe ia ao banco e tirava apenas um pouco de dinheiro. "Ora, se o banco está dando, pegue mais". Ela só ria e dizia "pois é, mas preciso deixar também pros outros". Como minha era gente fina. E como eu era aéreo.
Mas, aí você cresce, mesmo que continue sem entender o que significa ser de esquerda ou de direita. Os sonhos vão se formando, virando mais sonhos, pesadelos ou sendo construídos. A barba começa a crescer, os problemas também, os hormônios te empurram pra fora de casa ou pra dentro do quarto com um monte de discos e livros.
As discussões em casa se tornam repetitivas, a vontade de ir embora aumenta, você faz as malas, encara um novo mundo com a cara, coragem e lágrimas.Os primeiros vazamentos te deixam irritado, a cidade grande te deixa maravilhado, as primeiras tentativas e erros, frustrados. Você está crescendo, cara!
Mas, aí, o mundo se lembra de você e lhe aplica um belo pontapé nos fundilhos. E você só chora. E vai pro pau. Trabalho, novos amigos, possíveis amores, desilusões, até que um dia senta em uma mesa qualquer com um copo de cerveja entre amigos e passa alguns segundos catatônico, até ser desperto:
"Tá pensando em quê, na morte da bezerra?"
"Não, to querendo lembrar o que sonhava em ser quando menino."
"E o que você sonhava?"
"Não sei, mas, com certeza, não era fazer tal pergunta nessa altura da vida".
E vira um outro copo de cerveja. Quente. O fundilho nunca mais terá paz.