O mundo moderno oferece incríveis melhorias e coisas que só pareciam possíveis em sonhos, como a internet. Mas há um lado que sinto falta terrivelmente: hoje em dia é praticamente impossível vermos um lugar pequeno, aconchegante, quase secreto.
Nesse mundo cibernético e moderno em que tudo vira moda e logo morre, há algo que faz muita falta: os pequenos cinemas. Fui criado em Ribeirão Preto e, nos anos 80, as opções eram o Cine Bristol (o mais chique), o Plaza (o meu favorito), o Cauim (só filmes alternativos), etc e tal.
Em São Paulo, morei bem perto do Cine Elétrico, na Augusta. Vi vários filmes ali, no meio de semana, por uma merreca, voltando de madrugada, me esquivando de prostitutas e bêbados. Nos dia mais frios, a fumaça saía pela boca e muitas películas faziam a volta parecer mais longa, de tanto que me perturbavam.
Isso acabou: agora so temos esses Box Cinemas - ou qualquer nome que recebam essas empresas. Salas gigantescas, pipocas em copos imensos, atendimento impessoal. O ingresso é vendido com a moça sob um espelho grosso, a voz sai metalizada e por um preço salgado.
Yeah, finalmente o "cinemão americano" (em todas as suas definições) nos alcançou.
Triste também é ver que os filmes de ação, fantasia e terror respondem por 95% das produções. Onde estão aqueles filmes onde a trinca diretor-elenco-roteiro comandavam toda a ação? Porque temos apenas filmes em 3D, produções de 250 milhões de dólares e uma superexposição midiática absolutamente invasiva?
Comentava com a Naiacy, anteontem, quando meus colegas e eu subornamos o porteiro de um cinema em Ribeirão, que passava apenas filmes "adultos".
Queríamos ver "Como Afogar o Ganso" e o bilheteiro e porteiro ganharam duas vezes o preço do bilhete. Era uma loucura ver toda aquela orgia, mulheres nuas, pelos pubianos, etc.
Hoje... bom, perto dos filmes hardcores disponíveis na internet com um clique, é coisa de brincadeira e rotulados como "vintage".
"Vintage"... por que essa merda de palavra? E por que tudo que parece "vintage" parece mais divertido? Compare o uniforme do seu time hoje e veja como eram mais limpos e bonitos há 30 anos.
Sou uma pessoa velha, já passei dos 40 anos. Naiacy disse que ou ranzinza em muitos momentos. Sou mesmo, admito.
Mas deve ser porque tenho medo desse mundo, que não me aparece tão admirável, apenas para mostrar que sou "culto" e li Huxley. Sinto uma falta das salas pequenas, com poltronas de couro vermelha, chocolates Kri, mentex, banheiro escuro.
È horrível você entrar na sala com meio quilo de pipoca, 750 ml de coca-cola, poltronas modernas, som de última geração e explosões em 3D.
Eu quero menos: menos produção, menos requinte, ingressos menos caros.
Quero voltar ao tempo em que eu era feliz porque eu era infeliz.
Hoje sou infeliz porque sou feliz.
Naiacy está certo. Sou mesmo um ranzinza.
sábado, 21 de julho de 2012
God's Comic
I wish you'd known me when I was alive, I was
a funny feller
The crowd would hoot and holler for more
I wore a drunk's red nose for applause
Oh yes I was a comical priest
"With a joke for the flock and a hand up your
fleece"
Drooling the drink and the lipstick and
greasepaint
Down the cardboard front of my dirty dog-collar
[Chorus:]
Now I'm dead, now I'm dead, now I'm dead,
now I'm dead, now I'm dead
And I'm going on to meet my reward
I was scared, I was scared, I was scared, I was
scared
He might of never heard God's Comic
So there he was on a water-bed
Drinking a cola of a mystery brand
Reading an airport novelette, listening to
Andrew Lloyd-Webber's "Requiem"
He said, before it had really begun, "I prefer
the one about my son"
"I've been wading through all this unbelievable
junk and wondering if I should have given
the world to the monkeys"
[Chorus]
I'm going to take a little trip down Paradise's
endless shores
They say that travel broadens the mind, till you
can't get your head out of doors
I'm sitting here on the top of the world
I hang around in the longest night
Until each beast has gone bed and then I say
"God bless" and turn out the light
While you lie in the dark, afraid to breathe and
you beg and you promise
And you bargain and you plead
Sometimes you confuse me with Santa Claus
It's the big white beard I suppose
I'm going up to the pole, where you folks die of cold
I might be gone for a while if you need me
Now I'm dead, now I'm dead, now I'm dead,
now I'm dead, now I'm dead and you're all
going on to meet your reward
Are you scared? Are you scared? Are you scared?
Are you scared?
You might have never heard, but God's comic
Avalanche
Bem, eu adentrei uma avalanche,
Isso encobriu minha alma;
Quando não sou esse corcunda que você vê
Eu durmo embaixo do monte dourado.
Você que deseja conquistar a dor,
Deve aprender, aprender a me servir bem.
Você tomou meu lado por acidente
Enquanto descia pelo seu ouro.
O aleijado que você vestiu e alimentou
Não está mais faminto ou com frio;
Ele não procura por sua companhia,
Não no centro, o centro do mundo.
Quando estou em um pedestal,
Você não me armou lá.
Suas leis não me compelem
A ajoelhar, grotesco e desprotegido.
Eu mesmo sou o pedestal
Dessa feia corcunda que você encara.
Você que deseja conquistar a dor,
Deve aprender o que me torna amável;
As migalhas de amor que você me oferece,
São as migalhas que eu deixei pra trás.
Sua dor não é credencial aqui,
É só uma sombra, sombra da minha úlcera.
Eu comecei a ansiar por você,
Eu, que não tenho ambição;
Eu comecei a perguntar por você,
Eu, que não tenho necessidades.
Você diz que se afastou de mim,
Mas posso senti-la quando você respira.
Não vista esses trapos para mim,
Eu sei que você não é pobre;
Você não me ama tão ferozmente agora
Quando você sabe não estar certa.
É sua vez, adorada,
E é sua carne que eu visto.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Não-pod
Eram umas 18 horas no sábado quando peguei o ônibus até o centro para assistir minha patroa se apresentar em um espetáculo de dança do ventre. Fazia um certo tempo que eu não ia até lá, porque fica longe da minha casa.
São Luís é uma cidade bonita, apesar das barbaridades comuns nas cidades brasileiras. Por ser muito antiga, as ruas dos bairros mal comportam um carro - são apertadas, estreitas, esburacadas, curtas e provocam claustrofobia em certos momentos. Circular por elas dentro de um táxi pode provocar labirintite nos mais fracos.
As ruas são tão esburacadas como qualquer outra do país. O irritante é saber que a prefeitura a cada dois meses resolvem pavimentá-las metendo um pseudo-asfalto que eu batizei de sonrisal; basta uma chuva que leva tudo.
Parece uma borra de café. O mais impressionante é que ele é colocado mesmo embaixo de verdadeiros temporais, piorando ainda mais o caótico trânsito, tão carente em ruas e avenidas alternativas.
Não há segredos para ir da minha casa até o centro. É preciso pegar o ônibus na Avenida Jerônimo de Albuquerque e ir quase até o fim.
Para quem conhece São Paulo e acha que a Vergueiro é uma loucura - em certo ponto, ela termina numa rua e recomeça uns 400 metros à frente, após uns desvios - imagine uma avenida bem maior e sem nenhuma numeração nas casas.
É impressionante. As ruas não possuem nomes, são conhecidas dentro dos bairros por números e cada uma, na avenida bota a numeração que deseja. Assim, você encontra o número 10 ao lado do 30 e o 8 a 200 ou 300 metros antes ou depois. Se encontrar. E piora ainda mais quando ela vai cortando os bairros.
Nunca pergunte onde fica tal rua em tal bairro. Nem o carteiro saberá te informar.
Nesse caos todo, ver o centro histórico é desanimador. Devido à maresia e ao salitre é normalíssimo que tudo se deteriore rapidamente. Perdi vários cds e livros assim, ainda que eu os guarde em caixas ou armários.
A quantidade de prédios históricos destruídos e sem a menor esperança de restauração entristece. Mesmo o Teatro João do Valle - onde minha esposa e se apresentou e foi reformado há pouco tempo - mostra a face dura e feia dos nossos homens públicos: paredes manchadas, rebocos visíveis, marcas de goteira e cupim.
Turistas reclamam que tudo está em ruína, que as ruas fedem, que os paralelepípedos são lisos demais e da total ausência do policiamento.
Andar de táxi é uma diversão: motoristas tarados, que grudam na bunda dos ônibus, cortam a todo instante e que aceleram quando um pedreste atravessa de repente - "é para ver se o cara fica esperto e acelera o passo! Eu não breco não. Se passar por cima, passou!" - e que nem pensam em usa cinto de segurança ou seta.
O espetáculo da minha esposa? Ah, foi legal e ela dançou bem. Claro que eu apanhei do ipod dela e fiz caca na hora de gravar. Gosto tanto dele que o batizei de "não-pod".
Não-pod aliás é um bom slogan para reclamar as melhorias em nossas cidades.
Não-pod mais ficar assim.
São Luís é uma cidade bonita, apesar das barbaridades comuns nas cidades brasileiras. Por ser muito antiga, as ruas dos bairros mal comportam um carro - são apertadas, estreitas, esburacadas, curtas e provocam claustrofobia em certos momentos. Circular por elas dentro de um táxi pode provocar labirintite nos mais fracos.
As ruas são tão esburacadas como qualquer outra do país. O irritante é saber que a prefeitura a cada dois meses resolvem pavimentá-las metendo um pseudo-asfalto que eu batizei de sonrisal; basta uma chuva que leva tudo.
Parece uma borra de café. O mais impressionante é que ele é colocado mesmo embaixo de verdadeiros temporais, piorando ainda mais o caótico trânsito, tão carente em ruas e avenidas alternativas.
Não há segredos para ir da minha casa até o centro. É preciso pegar o ônibus na Avenida Jerônimo de Albuquerque e ir quase até o fim.
Para quem conhece São Paulo e acha que a Vergueiro é uma loucura - em certo ponto, ela termina numa rua e recomeça uns 400 metros à frente, após uns desvios - imagine uma avenida bem maior e sem nenhuma numeração nas casas.
É impressionante. As ruas não possuem nomes, são conhecidas dentro dos bairros por números e cada uma, na avenida bota a numeração que deseja. Assim, você encontra o número 10 ao lado do 30 e o 8 a 200 ou 300 metros antes ou depois. Se encontrar. E piora ainda mais quando ela vai cortando os bairros.
Nunca pergunte onde fica tal rua em tal bairro. Nem o carteiro saberá te informar.
Nesse caos todo, ver o centro histórico é desanimador. Devido à maresia e ao salitre é normalíssimo que tudo se deteriore rapidamente. Perdi vários cds e livros assim, ainda que eu os guarde em caixas ou armários.
A quantidade de prédios históricos destruídos e sem a menor esperança de restauração entristece. Mesmo o Teatro João do Valle - onde minha esposa e se apresentou e foi reformado há pouco tempo - mostra a face dura e feia dos nossos homens públicos: paredes manchadas, rebocos visíveis, marcas de goteira e cupim.
Turistas reclamam que tudo está em ruína, que as ruas fedem, que os paralelepípedos são lisos demais e da total ausência do policiamento.
Andar de táxi é uma diversão: motoristas tarados, que grudam na bunda dos ônibus, cortam a todo instante e que aceleram quando um pedreste atravessa de repente - "é para ver se o cara fica esperto e acelera o passo! Eu não breco não. Se passar por cima, passou!" - e que nem pensam em usa cinto de segurança ou seta.
O espetáculo da minha esposa? Ah, foi legal e ela dançou bem. Claro que eu apanhei do ipod dela e fiz caca na hora de gravar. Gosto tanto dele que o batizei de "não-pod".
Não-pod aliás é um bom slogan para reclamar as melhorias em nossas cidades.
Não-pod mais ficar assim.
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