quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Instinto

Se Iggy é o pai dos punks, o proto-punk em questão, esse disco é o mais heavy metal de todos que já fez.

Odiado pela crítica e pouco aclamado pelos fãs, Instinct (de 1988) é um disco de transição entre o pop de Blah Blah Blah - que vendeu mais do que todos seus álbuns anteriores - e a perfeição de Brick by Brick, com "Candy" em alta rotação na MTV.

Acompanhado de Steve Jones na guitarra (ex-Sex Pistols), Iggy faz rock and roll básico, sem frescura, com a produção esmerada de Bill Laswell.

Um ótimo disco para deixar rolar enquanto você cozinha, toma banho, namora ou quer apenas curtir um som.

Como brinde, a faixa que abre o disco, "Cold Metal", onde Iggy parece uma mistura de Mick Jagger com Sergei.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"Um punk, um punk!"

Essa é a história favorita do meu amorzinho e, acreditem, é real...

Em algum momento da minha vida entre 1994 e 2001 estava em Ribeirão na casa do meu pai e fomos ao mercado central, no domingo - tradição dos tempos de infância - e na volta, ao fazermos um caminho alternativo - sempre gostei de guiar por aquelas ruas, tão familiares, mas nunca lembro os nomes -, meu pai quase bate o carro e berra, chocado:

"Rubinho, Rubinho, olha isso, filho, um punk, um punk!" (e ele disse "punk" no sentido abrasileirado, com o "u" não soando como "a").

"Ok, pai."


"Como, ok? É um punk, filho. Não vá me dizer que você já tinha visto algum, antes?"

"Pai, eu moro em São Paulo há anos e o que mais se tem lá é punk. Aliás, pai, se fala "pank" e não "punk".


Obviamente, ele ficou azedo, me chamou de metido e fomos calado até em casa.

Mas, sempre que vejo a Naiá meio triste, aponto um ser imaginário e berro: "um punk, um punk!".

Meu pai não iria curtir muito...

A agonia de um arqueiro atrás do gol

Por um tempo, a minha vida se resumiu a um binômio: trabalho e encontro com as internautas.

Entre 1994 e 1996, eu labutava na Folha e dedicava algumas noites - ou tardes - aos encontros com mulheres dos chats do UOL, ZAZ (não havia o Terra ainda), entre outros.

Mas havia a pausa pro guerreiro, o descanso. E o meu descanso era uns dos mais primais entre os membros do sexo masculino: o futebol.

Desde 1990 eu era assíduo frequentador do futebol dos funcionários da GV, cortesia de um antigo amigo, colega desde os 3 anos, na casinha de madeira do Jack and Jill, o Gustavo, bibliotecário do local.

Chamar de "quadra", aquele cimento velho, podre, com duas traves sem redes era uma ofensa e não entendo como uma instituição como a Fundação Getúlio Vargas permitia algo tão revoltante.

Mas, era lá, que quase todo o sábado e por mais de 3 horas, eu jogava no gol. Às vezes ia pra linha e fazia meus golzinhos, abusando do meu chute forte de direita e do corpo que ganhava todas as divididas.

Eu era um goleiro razoável. Não tinha altura, mas era arrojado, ia em todas as bolas e voltava com os antebraços roxos para casa. Às vezes ia pro jornal e neguinho pensava que eu tinha me envolvido em uma briga ou em algum acidente.

Além de mim, havia um goleiro fixo, o melhor que já conheci. Berg era mais novo do que eu, tinha 2,03 m, magro, feio, mas jogava como um profissional.

Certa vez cismou que queria tentar um teste em um time de futsal - já havia tentado antes, sem sucesso - e pediu para um outro funcionário da casa, de nome Ulisses para treiná-lo.

Ulisses havia sido goleiro anos antes. Ulisses topou, mas Berg disse: "só faço se o Gordo topar". E me chamou.

Foi um crime. Ulisses tirava o couro nosso em três treinos semanais, às 22h, quando a quadra fica vazia, enquanto quase morríamos, completamente fora de forma. E ainda tínhamos que pagar para sermos arrasados!

No primeiro dia, quase caí duro. Após 50 minutos de treino físico - "vou arrancar essas banhas suas, Gordo!" - Ulisses nos mandou para o gol e começou a chutar de maneira violenta. De cinco, só uma era permitida entrar. Mais do que isso, eram 50 abdominais por bola.

Na primeira leva, entraram três. Na segunda, mais três. 200 abdominais depois e pronto para socá-lo, fui para o gol.

Peguei todas, sendo a última, uma bola venenosa rasteira, que catei com o punho, que inchou na hora. "Parabéns, Gordo, que reflexo você tem!"

Saí de quadra mais morto do que vivo e ainda tive que andar mais 1,5 km a pé, até chegar em casa.

Berg e eu treinamos mais um tempo, mas os dias eram duros, a grana, curta, não dava para pagar mais. Logo, ele desistiu pra voltar a tocar pagode no grupo da vizinhança.

Pouco tempo depois foi demitido e nunca mais o vi.

Mas jamais vou esquecer a defesa que dá título a esse post.

Era um amistoso na Freguesia do Ó, uma quadra sensacional, linda mesmo, larga. O jogo era duro, estava 7x7, quando um adversário entrou em diagonal, pela esquerda, e chutou rasteiro, com violência.

Berg apenas espalmou a bola, que bateu na trave e correu para o outro lado. A meio metro da linha do gol, o fixo chegou e encheu a pé. Gol. Quase. Quase, porque Berg, mesmo deitado do outro lado, deu um pulo, desses de cinema, e não apenas fez a defesa, como a agarrou, para desespero da torcida, que já comemorava.

Atrás da rede, não acreditei no que vi. Berg pedia que me posicionasse atrás dele, para ajudá-lo na "leitura tática" e para deixá-lo mais aceso. "Vai lá, Gordo, berra igualzinho a que você faz na GV. Acho um barato ver você dar aqueles esporros!"

Eu ficava atrás do gol e berrava até ele dizer "pára de falar um pouco, porra!". Mas eu continuava. E vi a maior defesa da minha vida.

Pena que não foi filmada, pena que nenhum Gol do Fantástico mostrou.

Cansado e mesmo matando a pau, pediu para que eu entrasse no gol. Recusei. "Então você veio brincar e não vai jogar? Entra aí e mostre como você joga".

Eu mostrei. Perdemos por 10x8, com dois frangos meus. Saí arrasado.

"Esquenta não, cara. Isso aqui é apenas uma brincadeira, não é sério. E daí que tomou dois frangos? Você fecha o gol lá na nossa quadra e é um cara bacana".

Bacana era o Berg. Que podia ter sido um dos grandes. Um Yashin (o cara aí da foto). Bom, pelo menos para mim.

Sinto saudades, nem sei ainda está vivo. Mas sei de uma coisa: quando me perguntam qual a melhor defesa que vi, nem titubeio: a do Berg.

domingo, 29 de novembro de 2009

A (nossa) falta de cultura esportiva

Por conta de alguns frilas fiquei lendo algumas matérias sobre o futebol inglês esses dias.

Algumas coisas me fascinam: primeiro, o cuidado com os sites oficiais dos clubes. Dá pena ver a nossa indigência e nossa preguiça esportiva. Depois, o cuidado com a marca, com a história, com os fãs.

O futebol inglês vive uma fase exuberante, embora essa bolha financeira possa explodir a qualquer momento por causa dos bilhões que entram de investidores misteriosos. Mas o que quero falar é da cultura esportiva.

Após a eliminação do Liverpool na primeira fase da Champions, especulou-se da saída do manager e treinador, o espanhol Rafael Benítez.

Só que ele e o clube renovaram recentemente o contrato, por mais cinco temporadas e o presidente dos Reds disse que não há chance alguma dele sair porque está apenas com quatro meses do novo acordo e uma derrota - no caso para o Lyon, na Champions - não pode servir de parâmetro, até porque o time perdeu jogadores fundamentais na janela - Xabi Alonso e Arbeloa - e ele precisa de tempo para remontar o time, coisa que o craque do time, Gerrard, concorda totalmente.

Estão certíssimos.

Desde 2004 no time, Rafa levou o time ao título europeu em 2005 e montou uma nova estrutura no time e uma equipe sempre forte. E, aqui, arautos da mediocridade travestidos de jornalistas - Lédio Carmona é um deles - diz que ele já encerrou o ciclo e deve ir embora de Anfield.

E aí me lembro de Sir Alex Ferguson. O homem chegou ao Manchester United em 1986, viu uma terra arrasada e demorou 4 temporadas para conquistar seu primeiro título (Copa da Inglaterra)!

Aí, pergunto: qual clube brasileiro de grande porte daria esse respaldo a um treinador?

O primeiro título do Campeonato Inglês veio apenas em 1993 e o da Champions, em 1999.

A essa altura, o time já era uma máquina bem construída, bem estruturada e com jogadores que marcaram época. Mas, veja, ele passou uma década - 10 anos, para quem não sabe - construindo uma estrutura.

No Brasil, planejamento a longo prazo é, no máximo, 24 meses, e 12, sem título. E aí você vê bons treinadores em clubes médios e bem estruturados como o Avaí perdendo o técnico porque recebeu uma oferta salarial melhor. E quanto tempo ele dura no novo clube? Por que não fica onde está e ajuda a construir uma estrutura forte e permanente?

Há uma diferença básica da visão brasileira e da européia: Aqui, o importante é conseguir um título a qualquer preço para acalmar os torcedores e tentar captar recursos e investidores, para, só depois, começar a pensar (talvez...) em montar uma estrutura, enquanto lá faz-se exatamente o inverso: primeiro, estrutura-se o clube todo para começar a sonhar com as conquistas.

Os técnicos são tão culpados quanto os dirigentes, não se enganem. Com esse papinho de "fazer a independência financeira" se mandam na primeira proposta deixando um bom clube e bom lugar para se trabalhar apenas pra encher os bolsos, se aventurando sem saber se receberá em dia ou que condições terá para exercer o cargo.

Uma lástima.

O mesmo vale pra Dorival Junior. Antes de ir pro Vasco ganhava uns 50 mil mensais. Chegou lá recebendo 280 mil e pediu 450 mil pra renovar! Fala sério! Meio milhão prum novato que nem saiu das fraldas? Onde estamos?

Não sei quanto tempo Muricy dura no Palmeiras. Não sei o que é planejamento no Brasil - porque simplesmente não existe - mas ao perceber a (falta) de cultura esportiva do nosso país, entende-se porque sempre seremos mão de obra exportadora. E nossos "analistas" sabem tão pouco ou menos do que quem comanda.

Pagar um caminhão de dinheiro a um técnico, sem um planejamento correto e sério, sem projetar o futuro,
não resolve nada. Mas, vá falar isso para um Belluzzo, um Dinamite ou para as "torcidas uniformizadas", esse maldito câncer, cada vez mais forte e intolerante.

Uma tristeza.

Ah, sim, vejam a pequena lista de títulos de Sir Alex Ferguson, após um começo difícil, segundo o site oficial do time. E visitem o site do time e babem com a viagem virtual por dentro do Old Trafford.

Sir Alex Ferguson

Manager From: 06 Nov 1986
Years as Manager: 24
Premier League: 1993, 1994, 1996, 1997, 1999, 2000, 2001, 2003, 2007, 2008, 2009
FA Cup: 1990, 1994, 1996, 1999, 2004
League Cup: 1992, 2006, 2009
UEFA Champions League: 1999, 2008
FIFA Club World Cup: 2008
UEFA Super Cup: 1992
UEFA Cup Winners Cup: 1991
Inter-Continental Cup: 1999
FA Charity / Community Shield: 1990 (shared), 1993, 1994, 1996, 1997, 2003, 2007, 2008