
Por um tempo, a minha vida se resumiu a um binômio: trabalho e encontro com as internautas.
Entre 1994 e 1996, eu labutava na Folha e dedicava algumas noites -
ou tardes - aos encontros com mulheres dos chats do UOL, ZAZ
(não havia o Terra ainda), entre outros.
Mas havia a pausa pro guerreiro, o descanso. E o meu descanso era uns dos mais primais entre os membros do sexo masculino: o futebol.
Desde 1990 eu era assíduo frequentador do futebol dos funcionários da GV, cortesia de um antigo amigo, colega desde os 3 anos, na casinha de madeira do Jack and Jill, o Gustavo, bibliotecário do local.
Chamar de "quadra", aquele cimento velho, podre, com duas traves sem redes era uma ofensa e não entendo como uma instituição como a Fundação Getúlio Vargas permitia algo tão revoltante.
Mas, era lá, que quase todo o sábado e por mais de 3 horas, eu jogava no gol. Às vezes ia pra linha e fazia meus golzinhos, abusando do meu chute forte de direita e do corpo que ganhava todas as divididas.
Eu era um goleiro razoável. Não tinha altura, mas era arrojado, ia em todas as bolas e voltava com os antebraços roxos para casa. Às vezes ia pro jornal e neguinho pensava que eu tinha me envolvido em uma briga ou em algum acidente.
Além de mim, havia um goleiro fixo, o melhor que já conheci. Berg era mais novo do que eu, tinha 2,03 m, magro, feio, mas jogava como um profissional.
Certa vez cismou que queria tentar um teste em um time de futsal -
já havia tentado antes, sem sucesso - e pediu para um outro funcionário da casa, de nome Ulisses para treiná-lo.
Ulisses havia sido goleiro anos antes. Ulisses topou, mas Berg disse:
"só faço se o Gordo topar". E me chamou.
Foi um crime. Ulisses tirava o couro nosso em três treinos semanais, às 22h, quando a quadra fica vazia, enquanto quase morríamos, completamente fora de forma. E ainda tínhamos que pagar para sermos arrasados!
No primeiro dia, quase caí duro. Após 50 minutos de treino físico -
"vou arrancar essas banhas suas, Gordo!" - Ulisses nos mandou para o gol e começou a chutar de maneira violenta. De cinco, só uma era permitida entrar. Mais do que isso, eram 50 abdominais por bola.
Na primeira leva, entraram três. Na segunda, mais três. 200 abdominais depois e pronto para socá-lo, fui para o gol.
Peguei todas, sendo a última, uma bola venenosa rasteira, que catei com o punho, que inchou na hora.
"Parabéns, Gordo, que reflexo você tem!"Saí de quadra mais morto do que vivo e ainda tive que andar mais 1,5 km a pé, até chegar em casa.
Berg e eu treinamos mais um tempo, mas os dias eram duros, a grana, curta, não dava para pagar mais. Logo, ele desistiu pra voltar a tocar pagode no grupo da vizinhança.

Pouco tempo depois foi demitido e nunca mais o vi.
Mas jamais vou esquecer a defesa que dá título a esse post.
Era um amistoso na Freguesia do Ó, uma quadra sensacional, linda mesmo, larga. O jogo era duro, estava 7x7, quando um adversário entrou em diagonal, pela esquerda, e chutou rasteiro, com violência.
Berg apenas espalmou a bola, que bateu na trave e correu para o outro lado. A meio metro da linha do gol, o fixo chegou e encheu a pé. Gol. Quase. Quase, porque Berg, mesmo deitado do outro lado, deu um pulo, desses de cinema, e não apenas fez a defesa, como a agarrou, para desespero da torcida, que já comemorava.
Atrás da rede, não acreditei no que vi. Berg pedia que me posicionasse atrás dele, para ajudá-lo na "leitura tática" e para deixá-lo mais aceso.
"Vai lá, Gordo, berra igualzinho a que você faz na GV. Acho um barato ver você dar aqueles esporros!"Eu ficava atrás do gol e berrava até ele dizer
"pára de falar um pouco, porra!". Mas eu continuava. E vi a maior defesa da minha vida.
Pena que não foi filmada, pena que nenhum Gol do Fantástico mostrou.
Cansado e mesmo matando a pau, pediu para que eu entrasse no gol. Recusei.
"Então você veio brincar e não vai jogar? Entra aí e mostre como você joga".Eu mostrei. Perdemos por 10x8, com dois frangos meus. Saí arrasado.
"Esquenta não, cara. Isso aqui é apenas uma brincadeira, não é sério. E daí que tomou dois frangos? Você fecha o gol lá na nossa quadra e é um cara bacana".Bacana era o Berg. Que podia ter sido um dos grandes. Um Yashin
(o cara aí da foto). Bom, pelo menos para mim.
Sinto saudades, nem sei ainda está vivo. Mas sei de uma coisa: quando me perguntam qual a melhor defesa que vi, nem titubeio: a do Berg.