Na tediosa noite de Ribeirão Preto à caça de uma rádio que tocasse alguma música que prestasse, comecei a virar o dial quando ouvi um barulho estranho: voz baixa, sinal idem e duas canções de Raul Seixas - "Mosca Na Sopa e "Mamãe", Não Quero Servir o Exército". Não bastasse serem duas músicas proibidas pela censura militar o locutor tinha uma voz de adolescente e dava boa-noite dizendo que a Rádio Tal voltaria amanhã. "Meu Deus", estremeci "uma rádio pirata!"
No dia seguinte, haveria a aula de literatura e precisávamos levar uma notícia qualquer e apresentá-la aos demais. Quando contei, ninguém acreditou. E aquilo me marcou.
Passa-se um tempo e comentei com o Adriano o acontecido. Não sei como ele tinha um folheto ou revista falando exatamente do assunto. Mas não era só. Existia um manual que ensinava a montar vários tipos de rádios piratas, inclusive em uma panela de pressão!
A coisa era o seguinte: você comprava os equipamentos, montava tudo e com a panela você ia se deslocando para atingir novos lugares. Segundo o folheto, a potência dava para cobrir um raio de 100 ou 150 metros. Eles explicavam que era bom você trocar sempre de lugar para não ser rastreado e, eventualmente, preso.
Claro que era um absurdo, mas eu perguntei pro Adriano porque não comprávamos o tal kit de montagem. "Rubinho, a gente manda o dinheiro numa carta e nunca mais o verá". "Ah, vamos arriscar". E arriscamos.
Semanas depois, Adriano me liga eufórico dizendo que o kit havia chegado. Oba! E agora?
Ficamos ansioso e começamos a conversar, imaginando quais seriam nossos próximos passos...
"Mas Rubinho, precisamos de uma panela de pressão!"
"Eu sei, Adriano. Pegamos da sua mãe ou da minha?"
Como dona Helena era mais mansa, optamos por sequestrar a panela de minha mãe. "Então, teremos que fazer em casa."
Fomos até minha casa, passei pela cozinha, sumi com a dita e entramos no meu quarto. Quando abrimos o pacote, uma decepção: tudo era complicado e não tínhamos equipamento específicos como um soldador, chaves, além de nenhum conhecimento de eletrônica.
Enquanto confabulávamos o que fazer - chamar um conhecido que manjava de rádios era a melhor opção -, alguém entra no meu quarto.
"Rubinho, meu filho, o que você está fazendo com minha panela de pressão?"
"Ah, oi mãe. É... uma experiência, mãe."
"Que experiência?"
"Estamos montando uma rádio pirata..." (Adriano quase se enfiou embaixo da cama envergonhado... "cala a boca, Rubinho!")
"Uma, o quê?"
"Uma rádio, mãe!"
"Uma rádio? Como assim, uma rádio? Do que você está falando?
"Oras, mãe to falando de uma rádio!" (Adriano quase se joga da janela...)
"Rubinho, você tá tirando uma comigo?'"
"Não, mãe, to falando sério".
A essa altura nem eu conseguia mais ficar sério perante tal diálogo absurdo. Mas ela prosseguiu...
"Tá bom. Vamos dizer que eu acredito que vai montar uma rádio com uma panela de pressão. E ela vai funciona como, com gás?"
"Não mãe, ligo na tomada!"
Minha mãe apenas olha pra mim com uma cara de riso...
"Sei... você liga a panela na tomada... ô meu filho, você andou bebendo novamente?"
"Não, mãe! Que coisa!"
E com aquele ar de quem não estava querendo explicação alguma, já que seria impossível entender o que eu falava, minha mãe apenas pegou a panela e a levou para a cozinha.
E minha vida de DJ, que mal havia começado, terminou...
Ah, sim... o Adriano permanece vivo...
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Relembrar é viver - 1
Se me perguntarem se gosto mais de música ou futebol, não vacilo: os dois!
Acumulei histórias divertidas em tudo, mas as que vivi enquanto repórter são mais charmosas, já que conheci muita gente famosa. Ainda assim, eu gosto de pequenas coisas da minha vida.
Quando morava em Ribeirão Preto, já começava a montar minha coleção de LPs - nem se falava ainda em CDs.
Minha módica semanada de 100 cruzados era gasto com um LP (75 reais) e uma fita Hot Tape da Basf (25 reais). Assim, eu precisava filar lanche na escola e ficar em casa no final de semana. Desesperado, meu pai me dava um dinheiro extra só para me ver "socializar". Ora bolas, eu saía, gastava pouco para poder comprar outros vinis.
Nessas minhas economias me lembro certa vez quando fui com o Adriano na Cantinho comprar uns vinis, num sábado. Eu tinha uma caloi 10 marrom e descia até a casa dele com ela e juntos íamos a pé até a loja, uma bela caminhada.
Após comprar uma leva de vinis estava voltando com os discos em um braço e o outro controlando a bicha. Começou uma garoa e quando fui brecar perto de um cruzamento os freios falharam. Para piorar, vinha um carro no pau.
Em uma daquelas cenas típicas de Indiana Jones pedalei mais rápido para o carro não me pegar, me aproximei da calçada, joguei os discos em um gramado e me agarrei a uma cesta de lixo de ferro para tentar frear a bicicleta. O tranco foi tão forte que eu me desequilibrei, caí no cimento e ela rolou alguns metros à frente. Milagrosamente vivo e sem escoriações, peguei os discos (todos inteiros, ainda bem!), subi na bicicleta e fui lentamente pra casa. Ao chegar, escondi os discos no jardim que seriam recolhidos depois que meu pai fosse dormir após o almoço e entrei no quarto.
Amanhã contarei o dia em que quis montar uma rádio pirata com uma panela de pressão!
Acumulei histórias divertidas em tudo, mas as que vivi enquanto repórter são mais charmosas, já que conheci muita gente famosa. Ainda assim, eu gosto de pequenas coisas da minha vida.
Quando morava em Ribeirão Preto, já começava a montar minha coleção de LPs - nem se falava ainda em CDs.
Minha módica semanada de 100 cruzados era gasto com um LP (75 reais) e uma fita Hot Tape da Basf (25 reais). Assim, eu precisava filar lanche na escola e ficar em casa no final de semana. Desesperado, meu pai me dava um dinheiro extra só para me ver "socializar". Ora bolas, eu saía, gastava pouco para poder comprar outros vinis.
Nessas minhas economias me lembro certa vez quando fui com o Adriano na Cantinho comprar uns vinis, num sábado. Eu tinha uma caloi 10 marrom e descia até a casa dele com ela e juntos íamos a pé até a loja, uma bela caminhada.
Após comprar uma leva de vinis estava voltando com os discos em um braço e o outro controlando a bicha. Começou uma garoa e quando fui brecar perto de um cruzamento os freios falharam. Para piorar, vinha um carro no pau.
Em uma daquelas cenas típicas de Indiana Jones pedalei mais rápido para o carro não me pegar, me aproximei da calçada, joguei os discos em um gramado e me agarrei a uma cesta de lixo de ferro para tentar frear a bicicleta. O tranco foi tão forte que eu me desequilibrei, caí no cimento e ela rolou alguns metros à frente. Milagrosamente vivo e sem escoriações, peguei os discos (todos inteiros, ainda bem!), subi na bicicleta e fui lentamente pra casa. Ao chegar, escondi os discos no jardim que seriam recolhidos depois que meu pai fosse dormir após o almoço e entrei no quarto.
Amanhã contarei o dia em que quis montar uma rádio pirata com uma panela de pressão!
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Seis vídeos...
Pela ordem: Puskas, Final de 1954 (Alemanha Ocidental x Hungria), em 4 pedaços! e Final de 1974 (Alemanha Ocidental x Holanda)
Vamos vetar a Pan!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
O terno de John Travolta
Abro o computador e quando vou selecionar uma música vejo uma pasta "Coletânea Anos 70", da minha esposa. Abro e quase caio da cadeira: Bee-Gees, Village People, etc...É claro que ponho para tocar e me lembro de uma parte não-autorizada da minha biografia: o meu terno branco. É verdade, eu tive um, igual ao de John Travolta!
Eu tinha 11 anos e era cismado de dançar em festa e um dia pedi para minha mãe me comprar um. Ela me levou numa loja da Rua Augusta e quando eu falei na loja todo mundo gargalhou e quase morri de vergonha. Mas ela comprou!
Terno branco, cinto preto, camisa azul escura, com uma discreta bandeira norte-americana no bolso. Bem, e daí?
E daí que eu não vestia aquela porra de jeito nenhum! Eu colocava a calça e a camisa, mas o paletó nunca, para protesto geral. Teve algumas vezes que eu colocava só pra fazer a alegria materna, mas era tão ridicularizado que logo jogava de lado. Às vezes eu deixava de propósito no carro do meu pai quando ia em alguma festa, como se estivesse esquecido. Mas quem disse que ele ou minha mãe não invadiam a festa com a peça?
Ah, o John Travolta não merecia isso. Nem eu. Aliás, merecia sim. Até que eu ficava bonitinho aos 11 anos, magrinhos, olhos grandes e cabelo encaracolado.
Que mico...
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