sábado, 27 de fevereiro de 2010

Respire fundo e aproveite



Somos apenas duas almas perdidas
Nadando num aquário
Ano após ano
Correndo sobre este mesmo velho chão
O que encontramos?
Os mesmos velhos medos


Wish You Were Here (Queria Que Você Estivesse Aqui)
  

Então,
Então você acha que consegue distinguir
O céu do inferno
Céus azuis da dor
Você consegue distinguir um campo verde
de um frio trilho de aço?
Um sorriso de um véu?
Você acha que consegue distinguir?
  
Fizeram você trocar
Seus heróis por fantasmas?
Cinzas quentes por árvores?
Ar quente por uma brisa fria?
Conforto frio por mudança?
Você trocou
Um papel de coadjuvante na guerra
Por um papel principal numa cela?
  
Como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui
Somos apenas duas almas perdidas
Nadando num aquário
Ano após ano
Correndo sobre este mesmo velho chão
O que encontramos?
Os mesmos velhos medos
Queria que você estivesse aqui
   

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Só com um farol



Há tanto tempo, eu nem me lembro quando
Foi quando eles me disseram que perdi minha única amiga
Disseram que ela morreu por uma doença de coração partido
Ou foi o que ouvi entre as árvores do cemitério

Eu vi o sol surgir sobre o funeral ao amanhecer
O longo braço quebrado da lei humana
Isso sempre me pareceu tamanho desperdício
Ela sempre teve um rosto lindo
E eu fiquei imaginando como é que ela andava por aqui

Ei, vamos, tente um pouco
Nada é para sempre
Há de ter algo melhor do que
o meio termo
Mas eu e a Cinderela
Nós agüentamos
Nós conseguimos chegar em casa
Só com um farol   

Ela disse "Está frio
Se parece com o dia da independência
E eu não consigo sair desse desfile
Mas precisa haver uma saída
Em algum lugar à minha frente
Desse labirinto de feiúra e cobiça"
Eu vi o sol, à frente,
Na ponte onde termina a cidade
Dizendo que tudo o que há é bom e que o vazio está morto
Nós correremos até que ela fique sem fôlego
Ela correu até não sobrar nada
Ela chegou ao fim - É só o parapeito da janela dela


Ei, vamos, tente um pouco
Nada é para sempre
Há de ter algo melhor do que
o meio termo
Mas eu e a Cinderela
Nós agüentamos
Nós conseguimos chegar em casa
Só com um farol    

Bem, esse lugar é velho
Parece com um caminhão batido
Eu ligo o motor, mas o motor não liga
Cheira a vinho barato e cigarros
Esse lugar está sempre uma bagunça
Às vezes eu acho que gostaria de vê-lo queimar
Estou tão só, e me sinto como outra pessoa
Cara, eu não mudei, mas sei que não sou o mesmo
Mas em algum lugar no meio dos muros dessa cidade de sonhos moribundos
Acho que a morte dela deve estar me matando



Ei, vamos, tente um pouco
Nada é para sempre
Há de ter algo melhor do que
o meio termo
Mas eu e a Cinderela
Nós agüentamos
Nós conseguimos chegar em casa
Só com um farol    

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Drummond

 
ELEGIA

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estela fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando,
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia, em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O Fio da Navalha

"Você é um homem profundamente religioso que não acredita em Deus."

Por motivos pouco importantes agora, reli, ontem e hoje, O Fio da Navalha, provavelmente meu livro favorito e que revisito menos do que deveria.

William Somerset Maugham é meu autor favorito da língua inglesa.

A Servidão Humana e Um gosto e seis vinténs são outros romances deles que me emocionam e sempre me deram a esperança de um dia ser escritor.

Triste e doce sonho.

Larry Darnell, o personagem central do romance, é a encarnação de tudo que eu gostaria de ser, tivesse tido culhão e coragem e fosse menos materialista. 

Um homem que quer saber qual o sentido da vida após ver um amigo seu ser morto na Primeira Guerra Mundial. Ambos eram pilotos da Força Aérea e Larry nunca se perdoou e jamais esqueceu o ato corajoso de seu amigo, que pagou com sua vida pela vida de Larry.

É tolice descrever o romance. Não tenho pretensões. Quero me ater apenas à essa bela frase, da página 287 da minha antiga edição.

Não sou filósofo e nem tenho a cutura suficiente para analisá-la. Li em algum lugar, talvez em Umberto Eco, que é preciso muita cultura e conhecimento de religião para poder ser considerado ateu.

Não é bem isso, como diz Naiacy, fervorosa leitora do italiano. Mas é algo que pode ser remotamente parecido. Ainda que ela me corrija, como fará, certamente, depois.

Larry faz perguntas que eu mesmo faço todos os dias: "se existe um Deus porque ele criou a maldade?" Ao ser explicado que "Deus criou a maldade para que as pessoas dominassem os instintos maus, resistindo a tentação, à dor, a tristeza e a infelicidade como provações enviadas por Deus como instrumentos de purificação e se tornassem finalmente merecedor da graça", Larry acha um absurdo.

Segundo ele, no livro: "Isto me parecia o mesmo que mandar um sujeito com um recado a determinado lugar e depois para dificultar-lhe a tarefa, construir um labirinto por onde se veria forçado a passar, cavar um fosso que ele teria de atravessar a nado e finalmente erguer um muro que ele seria obrigado a escalar. Não estava em mim acreditar num Deus sábio que não tenha senso prático. Não vi razão para não se acreditar num Deus que tivesse criado o mundo, mas que procurasse corrigir, na medida do possível, aquele que encontrara: um ser infinitamente melhor, mais sábio e maior que o homem, que lutara contra o mal que não fora criado por ele, podendo-se esperar que no fim chegasse a vencê-lo. Mas por outro lado, não vi também razão para se acreditar em tal Deus."
Bom, eu não vou explicar o que está mais do que explicado.

Compartilho e, se alguém quiser, comente, aventure-se.

Boa noite. 

Pérolas perdidas

Acabei de fazer uma coluna de uma banda esquecida pelo tempo: The Electric Flag. Incrível como os anos 60 são ricos em perólas desse naipe.

Liderados pelo guitarrista Mike Bloomfield e pelo ainda adolescente baterista Buddy Miles - chapa de Jimi Hendrix - fizeram dois discos com a formação clássica, sendo as duas músicas abaixo do segundo e mais clássico disco, A Long Time Comin'

Como convidado, um guitarrista brasileiro, mais conhecido aqui pela sua longa associação ao forró e ritmos brasileiros: Sivuca.

Só por isso já valeria ser ouvido. Mas tem mais, muito mais. Ah, se tem...