E aí você acorda e vê que suas rugas aumentaram, que as coisas estão fora do eixo.
Mas que eixo, man???E você percebe que os son(h)os foram trocados por (im)possibilidades e que você está ficando mais pra lá do que pra cá.
As costas doem, os tornozelos, idem, você pula apenas na imaginação porque a hérnia te diz "na na ni na não!" e você se imagina voando num palco imaginário como um Pete Townshend detonando mais uma Gibson sob os olhares anfetamínicos de um Keith Moon.
Puta, que bom seria, não????Mas você não é músico, não é inglês, não é destro. É um brasileiro de mais de 100 kg, sem ritmo algum e canhoto.
E que sonha em ser qualquer coisa e gostaria que parasse de pensar nas (im)possibilidades e amasse o que tem e seu futuro.
Assim mesmo, com os tornozelos fodidos, o peso acima e com quem te ama e te ajuda a comprar mais cds e dvds. Para poder sonhar.Para poder fazer do (im)possível, real.
Eu queria ser um músico para não depender de que outros fizessem a trilha sonora que vive dentro do meu cérebro. Mas, minha inabilidade com qualquer instrumento e a falta de concentração nunca me deixaram realizar esse sonho. Assim sendo, sou obrigado a usar a música dos outros.Poderia discorrer - acho que só sei fazer isso - sobre bandas, discos, etc e tal e contar minha vida sob a ótica de determinada canção.
Podia falar de pessoas, paixões antigas, alegrias, tristezas, amizade, mágoa e terminar com aquela famosa frase de Lou Reed - "música é tudo, só ela nos impede de ficarmos loucos."Pensando bem, já terminei.
Entre os colecionadores de discos existe uma frase que é "tal disco é o Sgt. Pepper's desse grupo" para designar que o álbum em questão era a grande obra-prima do artista mencionado. Tinha um colega, beatlemaníaco de carteirinha, que dizia uma pérola, digna de antologia: "O Sgt. Pepper's dos Beatles é o Revolver."Indo no mesmo caminho quero fazer uma campanha a favor dos "gordos saudáveis": são aqueles que não bebem, não fumam, dormem cedo e só saem de casa acompanhado de suas respectivas patroas.Menon e eu somos os dois primeiros sócios. Quem mais se habilita?
Tarde da noite, o telefone toca:- Alô.- Rubens, o que você está fazendo aí, homem de Deus? Não ficamos de sair?- Ah... É... foi.. Me desculpe...- Venha logo, então!- Não dá, aconteceu um imprevisto.- Qual?- Um amigo veio me visitar de repente.- Um amigo? Você tá de brincadeira!- Sério! Ele veio do estrangeiro e passou aqui.- E quem é?- Ah, é um cara chamado Bill!- Bom, fale que você tem um compromisso.- Não dá, pô, ele veio de longe!- Tá bom, traga-o então!- Impossível!- Por que?- O piano é muito pesado.E desliguei o telefone da tomada...
Esse pequeno naco de minha atormentada bio é para dizer como amava ouvir anos atrás, trancado em casa o CD Conversations With Myself, do pianista Bill Evans. Bill se tornou um dos meus pianistas favoritos depois que ouvi infinitas vezes Kind of Blue, gravado por Miles Davis, em 1959 e no qual ele participa.Anos depois de ter dizimado minha coleção, achei esse CD por uma pechincha. Claro que não vou dar o fora em ninguém até porque hoje sou casado. Mas já que estou ouvindo-o nesse momento, deixo o telefone desligado. Só pra garantir. Só pra garantir.