sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Dançando descalço

Ah, São Paulo, o tanto que sinto sua falta!

Por volta de 1988, 1989, 1900, por aí, eu vivia o auge da minha paixão pelo U2 e comprava tudo que encontrava na frente. Consegui uns singles deles (When Love Comes to Town) e no lado B de tinha uma cover sensacional de Dancing Barefoot, feita por Patti Smith.

Ah, eu não posso ouvir essa canção sem me relembrar daqueles dias. Enquanto eu me sentia torturado por não saber o que queria da vida - mas será que hoje eu sei? - e andava horas sem parar pela cidade com um casaco - eu quero um pouco de frio, porra! - com o walkman num bolso e uma cartela de Duracell e mais fitas no outro. E andava, andava, andava, como andava.

Eram dias confusos e eu só deixava a música tomar conta de minha mente enquanto tentava colocar alguma perspectiva na minha cabeça. E foi quando comecei a deixar essa fita tempo demais comigo.

A voz de Bono, a guitarra hipnótica de The Edge, a cozinha segura de Adam e Larry, tudo aquilo me fazia querer levitar, algo improvável para alguém tão pesado como eu.

Certa vez, numa festa morna de alguém que jamais tinha visto, comecei a conversar com o entediado DJ. Era uma noite chuvosa, os mauricinhos e patricinhas estavam impecáveis e eu com o ar de louco desiludido de sempre. Pedi para que ele tocasse a minha fita, o que não recusou.

No mesmo instante, abri a porta que dava pra sacada do prédio, tirei os sapatos e comecei a dançar. A chuva trazida pelo vento começou a me molhar, mas eu não me importava. Pela primeira vez, em algum tempo, me sentia vivo. Sim, eu sentia frio, estava úmido mas a música disponibilizava toda a vida de que eu precisava.

Ao final dela, abri os olhos e vi que a festa havia parado e todos me encaravam. "Será que o gordo está drogado?", deviam pensar.

Não, não estava. Quer dizer, estava sim. Estava intoxicado de querer viver. E sem olhar pra ninguém, aceitei uma toalha que me deram enxuguei um pouco o rosto, peguei minha fita, meus sapatos e descalço mesmo saí pela noite, chuvosa.

Obrigado, Bono, Edge, Larry, Adam e Patti por me mostrar que aos 21 anos eu ainda estava vivo. Isso fez toda a diferença.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Trilha-sonora noturna

Em 1988, Patti Smith fez uma volta sentimental após sua despedida da música, em 1979.

Após 4 álbuns sublimes, Patti cansou da vida de estrela e recolheu-se para casar com o ex-guitarrista do MC5, Fred "Sonic" Smith e realizou seu grande sonho: ser mãe.

Patti cumpriu à risca, mas a estrada lhe chamava e ela voltou com o delicado e sensacional Dream of Life, que se tornou um dos álbuns favoritos de minha coleção.

Ao invés da Patti exalando Rimbaud, via-se uma mulher de 40 anos mostrando sobriedade nos arranjos, voz emocionada e lutando pelos direitos, como em "People Have The Power", um de seus grandes clássicos.

Mas foi em duas canções que ela mostrou todo seu lado mais lírico e atual: a tocante "The Jackson Song" (o nome de seu filho) e "Path That Cross", uma balada perfeita.

O vídeo abaixo é cafona e nada tem a ver com a música original, mas serve como um bálsamo nestes dias mais tumultuados.

Talvez alivie o peito de quem precisa de paz, ainda que passageira. Talvez te faça chorar ou simplesmente sentir que ainda está vivo e que seu coração ainda não se fechou. Qualquer que seja o resultado é uma boa maneira de se fechar a noite.

Boa noite.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Gordo de futuro

Não acredito em chavões e coisas do tipo "a vida começa aos 40", mas não posso negar que minha vida melhorou muito no 40º ano da minha vida.

Eu não vou ficar lavando roupa suja aqui, não tem cabimento e isso é assunto apenas meu.

Hoje pela manhã fiquei relembrando alguns momentos de minha vida ainda na faculdade, antes de entrar no jornalismo. Ok, nunca fui bom aluno, era mais um turista.

Guardo poucas lembranças, poucos nomes de colegas.

Guardo, porém, viva um dia em que disputávamos um torneio de futsal da engenharia.

O time oficial deles se dividiu em dois para disputarem a final. Mas não contavam conosco, especialmente com esse que teve uma atuação na semifinal que São Marcos - ainda um juvenil cabeludo, em 1993 - aplaudiria de pé.

Saí com o pé inchado por uma defesa no último segundo do primeiro tempo, tomei bolada na clavícula, no queixo, no nariz, na barriga e numa dividida em um contra-ataque rival derrubei o adversário e, no embalo, o juiz e o bandeirinha.

Saí todo esfolado direto pra casa - morava há menos de 500 metros do Mackenzie - e ganhei beijos - na bochecha - de três colegas, uma delas, paixão secreta daqueles dias.

Ao final do time, o mascarado time "oficial" saiu resmungando "de onde saiu esse gordo que jogou no gol? Cara, que fdp!". O juiz me cumprimentou pessoalmente e deu um conselho - "emagreça que você pode ser profissional" - Profissonal, aos 24 anos, cara-pálida?

Os meus colegas me abraçaram, sorriram e tentaram - tarefa inglória - me erguer nos ombros. Tomei cerveja com eles, minha atuação virou um dos mitos naqueles dias no campus, e revoltada, a diretoria do Centro Acadêmico, misteriosamente suspendeu o torneio, pois seus quadros "A" e "B" caíram para nós: o primeiro por 5x3, e o segundo, por 2x0.

E, pela primeira vez na vida, ser chamado de "gordo fdp" foi música pros meus ouvidos.

PS: reza a lenda que São Marcos viu aquele jogo e o decorou na retina. Segundo consta até chegou a dizer anos depois: "cara, vi um gordo jogando uma vez, o fdp tinha futuro. Se ele emagrecesse...."

terça-feira, 8 de setembro de 2009

It's not dark yet

But its getting there....



segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"Parece contigo..."

"especialmente o final."

palavras da esposa. Será que sou tão bom quanto um poema de Drummond?

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.