Sincronicidade existe. Ontem a vivenciei, novamente.Após fazer um post falando do Salsicha e contando como ele tentava empurrar cds de Iggy e dos Stooges pros clientes, dei de cara com um pacote inusitado. Em uma dessas revistas lixo de música, havia um CD + DVD de Iggy & The Stooges, ao vivo, na Bélgica, por incríveis R$ 7,90, chamado Escaped Maniacs (PS: essa é a capa da versão importada do DVD).
Fiquei com um pé atrás: show de 2005, mas me animei quando vi que tinha extras com entrevistas com cada um da banda.
Mamãe, que sensacional! Em 64 minutos de show, Iggy parece possuir turbinas no corpo. Impossível não ser contagiado com sua performance visceral.
A banda optou em tocar apenas os dois primeiros discos, deixando Raw Power de fora e fez uma senhora apresentação. Como estão em forma os velhinhos, acrescido do consistente e talentoso baixista Mike Watt, ex-Minutemen.
O melhor, no entanto, foram as entrevistas. 30 minutos com Ron Asheton, 20 com Scottie e 1 hora com a lenda em pessoa, Jim Pop. O único senão é que, mais uma vez, a versão do DVD brasileiro deixa a desejar, cortando vários extras do DVD original e com capa adulterada. Mas, por esse preço tá bom demais.
Maranhão é uma droga, mas vez por outra, o destino me ajuda.
E por falar em Salsicha, outra história, quase lenda...
Salsicha tinha sua mania, como todo doente. A pior delas - ou uma das, o cara era caso para Freud, Jung, Reich e Analista de Bagé, juntos - eram suas fitas cassetes.
Salsicha tinha um gosto parecido com o meu e do Carlos - nem tanto assim, na verdade.Gostava de Television, Echo, Japan (foto), mas tinha um dom: só gravava as músicas mais chatas de cada artista.
E tinha um defeito irritante: as gravava em uma fita de 90 minutos e levava no bolso de suas horrorosas camisas para tocar na Sweet Jane.
A loja tinha um aparelho e todos eram autorizados a tocar seus discos: Carlos comandava 80% da ação com seus progs infindáveis, eu ficava com 10%, Gustavo com uns 5% e tinha, infelizmente, os 5% do Salsicha.
Não posso me lembrar da cena sem um calafrio: ele sempre usava alguma camisa com bolso. Por volta das 14h30, 15h, tirava daquele lugar do capeta, uma fita, pegava uma caneta e começava rebobiná-la, calmamente. Era pior do que pau-de-arara. E... a tocava.
Eram 90 minutos de dor, de depressão, de confessar crimes nem cometidos. Qualquer coisa, menos aquilo. Às vezes tinha a impressão que ele gravava os discos fora de rotação. "Não é possível, Marcelo, sua fita está com problema. A voz do Ian McCulloch não é desse jeito!".
A coisa era tão grave, que, certa vez eu cortei uma fita com tesoura.
Ele ficou puto, desconfiou de mim, mas como neguei com toda calma, começou a levá-las dentro do estojinho de acrílico e só tirava na hora de tocá-las.
Eram 90 minutos intermináveis. E viva a democracia!
Um dia, irritado, ele foi ao banheiro e deixou a fita lá. Carlos e eu trememos.
"Rubens, ele vai tocar Japan de novo. Eu não aguento mais, Rubens, faça alguma coisa!"
"Faça você, a loja é sua. Demita-o, caralho!"
Não, não tenho coragem. Faça algo por você, imploro!"
As merdas sempre caem no meu colo...
Não tive dúvidas. Peguei a fita e joguei atrás do móvel onde ficava o aparelho. Dei um olhar pro Carlos do tipo "a gente não sabe de nada."
Ele foi pro escritório e eu fui até a lanchonete pegar um refrigerante, a cinco metros dali, só esperando a merda acontecer.
"Rubens, viu minha fita?"
"Que fita?"
"A fita que deixei aqui."
"Não vi, Marcelo."
"Puta merda, cara, era minha fita especial do Japan, com lados Bs e um show raro! (socorro, senhor!)
"Você deixou aí mesmo?"
"Claro que deixei, fui até o banheiro e a coloquei aqui."
"Não deixou no banheiro?"
"Claro que não!"
"Bom, eu não vi."
"Carlos, viu minha fita?"
"Não, Marcelo."
"Meu Deus, minha fita, vou morrer, minha fita amada, ouço-a sem parar há uma semana. Não, por favor, quero minha fita!"
Senti que ele ia enlouquecer, mas aguentei firme. Carlos deu uma de patrão.
"Marcelo, controle-se, isso é um estabelecimento comercial. Sua fita não está aqui, você esqueceu em algum lugar."
"Não esqueci não, eu sei!" (ele babava a essa altura). Vou procurá-la no banheiro.
Cinco minutos depois, o segurança vem nos chamar. Marcelo está fazendo um barulho dos infernos no banheiro, revirando tudo e entrando até nas cabines onde as pessoas estavam quietas, se aliviando.
"O amigo de vocês está com algum problema. Poderiam ir tirá-lo de lá?"
Marcelo estava louco. Tão louco que não me deu alternativa. Peguei a fita e disse:
"Calma, Marcelo, a fita caiu do balcão e acho que você não percebeu. Acalme-se."
O rapaz quase chorou. Mas a gente não ia ouvir aquela fita nem fodendo, por isso pedi pra Carlos mandá-lo para casa e descansar. Contrariado, obedeceu.
Dias depois, o aparelho começou a dar, "estranhamente", problemas, no toca-fitas...



