
O campo de futebol é tão grande que dá para se perder. Embora eu tenha sido um jogador medíocre, gostava de algumas sensações. Gostava de ficar bem perto da bandeira de escanteio, marcado, vendo qual a situação que encontraria. Botaria na canela do adversário? Deixaria ele me empurrar e sofrer a falta ou cederia o tiro de esquinado?
Também sempre gostei de tentar lançamentos longos. Nada é mais bonito do que a posição de volante, vendo o jogo inteiro, observando a movimentação dos demais. O futebol é apaixonante por ser simples e por mostrar todas as virtudes e defeitos humanos de uma pessoa num curto espaço. E Camus concordaria comigo. No caso, eu concordo com ele. Não sou besta.
Quando fodi meu tornozelo pela primeira vez, pouco pude jogar. Isso fez uma diferença tremenda. Não pelo meu talento, volto a repetir, mas pelas possibilidades. A sensação de vigor, de correr atrás de uma bola, de concatenar imagens, de ver as sinapses trabalhando a toda, da camaradagem. Como não tinha mais tornozelo para correr, fui para o gol. Vivia roxo nos braços, nas pernas. Jogava futebol de salão e dava, literalmente, o sangue todo sábado, por três horas. Minha tia dizia que eu gostava desse tipo de coisa para poder aliviar outros traumas. Verdade.
Poucas posições são tão bonitas quanto o goleiro. A solidão, o uniforme diferente, a presumível impossibilidade de se falhar no momento derradeiro. Tive minhas defesas espetaculares na gaveta, momentos que se eu contar me chamarão de mentiroso.Todos vivemos para esses momentos. Em qualquer atividade.
Não era um perna-de-pau, mas não tinha altura ou técnica. Tinha arrojo, isso não se pode tirar de mim. Saía no pé, na cabeça, no estômago. Era leal, poucas vezes capitão. Disciplinado, chato, berrava com meu fixo o tempo todo. O futebol me ensinou, entre outras coisas, lealdade. E companheirismo.
Mas a vida nos priva dessas coisas. Na faculdade resolvi que iria estudar xadrez. Ficava oito, nove horas, jogando sozinho, lendo livros, copiando diagramas do Estadão, jogos de Kasparov, Karpov, etc. Aprendi com meu tio, entediado por não ter com quem jogar e acabou doutrinando-me e um ex-namorado da minha irmã. Jogamos umas 500 partidas, devo ter ganho umas 25, se tanto. Cada derrota me consumia, mas eu voltava ao tabuleiro. Só uma me tirou do sério. Estava vencendo, tinha um mate em um lance, não vi e perdi! Fiquei dois dias sem olhar prum tabuleiro, enfurecido.
Nunca tive jeito para isso, não. Tenho boas memórias, no entanto. Uma vez cismamos de comprar um relógio para jogarmos. Rodamos feito malucos e acabamos indo ao Clube do Xadrez para adquirirmos, embaixo de uma chuva torrencial. Saudades daqueles tempos...
Cobri futebol. Cobri xadrez. Profissionalmente. Marcos, Karpov, Arce, Gilberto Milos. Fui falando com quem aparecia. Fazendo as perguntas mais descabidas. Mas ia aprendendo. Chorei muito quando tive que deixar o Lance! até porque eu tinha feito muitos contactos e sabia que iriam se perder. Conversas com Giovanni Vescovi, Rafael Leitão, Gilberto Milos, um sorriso de Karpov que perguntou se eu não tinha o entrevistado três anos antes, em Cumbica! O cara, ex-campeão do mundo, se lembrou da minha entrevista com ele, naquele dia! Quase chorei...
Pôxa, tanta coisa para se dizer! Nunca gostei do Zagallo, mas ele foi um cavalheiro comigo, não nego. Gostava do Luxemburgo, mas ele foi um escroto. Detesto o Leão, mas ele foi cavalheiro também, acreditem ou não. Me salvou um dia de treino e duas páginas.
Tanto ídolo que me azedou, tanto chato que levantou minha moral como um rabo-de-galo numa noite chuvosa.
Eu não pego mais no gol, não tenho com quem jogar. Xadrez, eu tentei ensinar a Naiacy, mas ela não curtiu. Jogar no micro é chato. Odeio tela plana, gosto de fazer aquela coisa de apoiar os braços na mesa e olhar por cima das peças, como se fosse um bombardeio. Fiiuuuuuuuuuuu lá vai meu xeque-mate, cubram-se!!! Ah ah ah...
Nunca dei xeque-mate bonito. Nunca tive estilo. No jogo. Estilo, até que tenho. Jeito, talvez. Apenas lamento que o mundo não tenha conhecido meu xeque pastor que tanto iria arrebentar com a vida dos maiores campeões. Ia ensinar ao Karpov, mas não deu tempo. Acha que eu ia ensinar aos brazucas? Dá um tempo malandragem... arma mortal só para os maiorais.
Cuzões...