sexta-feira, 5 de setembro de 2008

É proibido ler!

Eu jamais gostei de filmes de terror, mas, confesso, assisti o mais aterrorizante de todos agora: Fahrenheit 451. Antes que alguém me diga, que enlouqueci, explico: esse filme me dá medo, não por ser uma mera ficção, mas por ter virado realidade.

Fahrenheit 451 trata de uma história baseada no romance de Ray Bradbury, que conta o pesadelo de viver em uma sociedade onde os livros são proibidos e que as pessoas são obrigadas a ficar presas em casa vendo tvs e programas estúpidos.

Vendo o filme não dá para deixar de lembrar de Xuxa, Ana Maria Braga, Pastores, programas femininos, mesas redondas... é arrepiante.

Bradbury explicou que o livro não era contra a censura e sim contra a escravização da televisão, que destruiu o hábito da leitura. E isso há mais de 50 anos, imagine agora.

Embora haja uma estatística maluca que prova que o brasileiro lê mais, não há um estudo da qualidade da leitura, afinal, as pessoas só se preocupam com auto-ajuda e coisas absurdas, e por isso, nosso mundo é igualmente absurdo.

Me lembro quando vi uma mãe ralhar com o filho de estar lendo uma revista de uma tema cultural e o obrigou a ler a passagem da Bíblia "que nosso pastor o ordenou. Como ousa desrespeitar as ordens de Deus?"

Que vontade me deu de incinerá-la igualzinho aos bombeiros de Fahrenheit 451.

Quando menino, tinha pavor da cena final Planeta dos Macacos, quando Charlton Heston vê a Estátua da Liberdade e descobre que está na Terra. Hoje, me borro, cada vez que vejo os homens de preto queimando livros; corro imediatamente pra perto dos poucos que ainda tenho e vejo se todos estão lá.

Vai que a Ana Maria Braga mandou seqüestrá-los... ainda bem que a Globo pega mal no meu quarto!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Diversão, é solução, sim!

Diversão, é solução pra mim!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pluralidade

Há alguma maneira de melhorar a vida? Há alguma fórmula pré-estabelecida realmente, incluindo essas bobagens de auto-ajuda? O que é a vida? Trabalho, rotina, cerveja com os amigos, churrascos, futebol na tv e filhos e TV Globo? Não haverá nada mais do que isso?

A vida precisa ser diferente. O mundo acabou-se, implodiu dentro da mediocridade. Pombas, qual o problema de se ouvir Motörhead e Ella Fitzgerald no mesmo dia? É tudo música, não? É preciso ter gavetas na vida? Ouve-se jazz, mas não ouve-se rock; quem ama Fellini não pode amar blockbuster etc.

Não aceito categorizações, plataformas, verdades absolutas. Não aceito que a vida seja apenas uma busca por dinheiro e pela felicidade que nunca se alcança. A gente se mata para guardar grana para gastarmos na velhice, quando ficaremos tão fodidamente doentes, que tudo irá em consultórios e remédios pro coração. Não quero isso para mim.

Tenho uma tendência hereditária a ser amargo com as pessoas e venho lutando contra isso diariamente. Sabe como é, medo de perder o casamento, as pessoas que amo, os amigos, a vida, o sentido. Aí você ganha um enfarte, uma trombose, um AVC e vira um vegetal e, por favor, atirem na minha cabeça se isso ocorrer, porque assim não quero ficar.

Dessa maneira, houve-se um pouco de Chocolate Watchband seguido de Paulinho de Viola. E viva a pluralidade. E viva estar vivo. E fodam-se os problemas antes que eles te fodam.

É a velha piada: se você deve mil reais ao banco perde o sono; mas se deve 10 milhões são eles que o perderão.

Abracei essa frase, com todas as contradições que ela me causa.

Contraditório, como eu. Contraditória, como a vida.

Segunda com poesia

CONVERSA SOBRE POESIA COM O FISCAL DE RENDAS
(Vladímir Maiakósvki (1893-1930); tradução de Augusto de Campos)

Cidadão fiscal de rendas!
Desculpe a liberdade.
Obrigado...
Não se incomode...
Estou à vontade.
A matéria
que me traz
é algo extraordinária:
o lugar do
poeta
na sociedade proletária.
Ao lado
dos donos
de terras e vendas
estou também
citado
por débitos fiscais.
Você me exige
500 rublos
por 6 meses e mais
25 por falta
de declaração de rendas.
O meu trabalho
a todo
outro trabalho
é igual.
Veja só
quantas perdas de vulto,
que despesas
requerem
meus produtos
e quantos gastos
com material.
Você conhece
por certo
o fenômeno "rima":
suponha
que uma linha
finde na palavra "pai"
e que ao fim da
outra linha,
menos uma,
se imprima
por exemplo
a palavra
"lampaipapai".
Em linguagem de fisco
a rima
é uma letra a termo fixo
para desconto
ao fim da linha
sem mais prazos.
E sai-se à caça
da minúcia
de flexão ou sufixo
na caixa escassa
das conjugações
e casos.
Tenta-se pôr
essa palavra
numa linha
mas ela não cabe,
força-se
e ela se esfarinha.
Cidadão fiscal de rendas,
eu lhe juro,
as palavras custam
ao poeta
um duro juro.
Para nós,
a rima
é um barril.
Barril de dinamite.
O verso, um estopim.
A linha se incendeia
e quando chega ao fim
explode
e a cidade em estrofe
voa em mil.
Onde encontrar
e a que tarifa
uma rima que mire
e mate de uma vez? Dela
talvez
ainda sobrevivam
cinco exemplares
nos confins
da Venezuela.
E tenho que enfrentar
pólos e saaras,
e me lanço
entre dívidas
e vales dividido.
Cidadão,
condescenda,
as passagens são caras!
A poesia
- toda -
é uma viagem ao desconhecido.
A poesia
é como a lavra
do rádio,
um ano para cada grama.
Para extrair
uma palavra,
milhões de toneladas de palavras-prima.
Porém
que flama
de uma tal palavra emana
perto
das brasas
da palavra-bruta.
Essas palavras
põem em luta
milhões de corações
por milhares de anos.
Por certo
há poetas
de diversas classes.
Quanto vates
têm dedos ágeis!
Vertem versos
da boca
como mágicos,
tanto deles
como dos clássicos.
E que dizer
dos líricos castrados?!
Furtam
linhas alheias
e se fartam -
tipo
de peculato
dos mais alastrados
neste país, entre outros peculatos.
Esses
versos e odes
que os simplórios
aplaudem hoje
com soluços e confetes
passarão
à história
como os gastos acessórios
da obra
que fizemos,
dois ou três poetas.
Come,
como se diz,
quilos de sal,
maços
e maços
de cigarros consome
para extrair
a palavra essencial
das profundezas
artesianas do homem.
E de repente
o imposto
já não é tão caro.
Tire
a roda de um zero
do total!
Um rublo e noventa
custam os cigarros,
Um e sessenta,
o quilo de sal.
No questionário
há um monte de quesitos:
"O Sr. fez viagens?
Sim ou não?"
Mas como,
se eu fiz vôos infinitos
em dezenas de pégasos
nestes 15 anos?!
E agora
- ponha-se no meu lugar -
nesta coluna
há algo
sobre criados
e fortuna.
Mas como,
se sou dirigente
e servidor
também
de toda a gente?
A classe
fala
pela nossas palavras.
Nós somos
proletários
e motores da pena.
A máquina
da alma
com os anos se trava,
e dizem:
- Ao arquivo!
Acabou-se.
Um de menos!
Menos amor,
cada vez menos ações,
e o tempo
na corrida
minhas têmporas esmaga.
E vem
a mais terrível
das amortizações.
a de almas e corações
- última paga.
E quando
este sol
cevado como um porco
se erguer
sobre um porvir
sem mutilados nem mendigos

estarei
podre e morto,
de borco,
junto
de uma dezena
de colegas.
Façam
o meu balanço
a posteriori!
Mas eu afirmo
(e sei
que meu verso não mente):
no meio
dos atuais
traficantes e finórios
eu estarei
- sozinho! -
devedor insolvente.
A nossa dívida
é uivar
com o verso,
entre a névoa burguesa,
boca brônzea de sirene.
O poeta
é o eterno
devedor do universo
e paga
em dor
porcentagens
de pena.

Eu
estou em dívida
com os lampiões da Broadway,
com o Exército Vermelho,
com vocês,
céus de Bagdádi,
as cerejeiras do Japão
e toda a infinidade
a que eu não pude dar
a sobra de uma ode.
Mas para que
afinal
estas molduras são?
Para que fazer
da rima, mira
e do ritmo, chibata?
A palavra do poeta
é a tua ressurreição,
a tua imortalidade,
cidadão burocrata.
Daqui a séculos,
do papel mudo
toma um verso
e o tempo ressuscita.
E volverá
este dia,
seus fiscais de tributos,
a miragem dos mitos
e a catinga de tinta.
Convicto vivente contemporâneo,
compra no Comissariado
uma passagem para a imortalidade
e, computados,
os efeitos do verso,
reparte,
o meu salário
por trezentos anos!
Mas a força do poeta
não se reduz só
a que te lembrem
no futuro
entre soluços.
Não!
Hoje também
a rima do poeta
é carícia
slogan
açoite
baioneta.
Cidadão fiscal de rendas,
eu encerro.
Pago os 5
e risco
todos os zeros.
Tudo
o que quero
é um palmo de terra
ao lado
dos mais pobres
camponeses e obreiros.
Porém
se vocês pensam
que se trata apenas
de copiar
palavras a esmo,
eis aqui, camaradas,
minha pena,
podem
escrever
vocês mesmos!